quinta-feira, 7 de maio de 2009

Objectos de desejo - Kafka

Quantas vezes penso muito devagar, sem pressas, neste estranho convívio com eles? É sobretudo ao nascer da manhã, naquele instante de luz ténue. Com ela o dia surge-me timidamente. Mas é com ousadia que recordo o amor vivido ao longo do tempo... todos os fragmentos da sua memória confluem para me despertar. O desejo sempre impaciente e inesgotável que ora tortura, ora enternece, acendendo a devoção desse eu profundo que se descobre no inesgotável percorrer das folhas. A vista que conquista incansavelmente - agora já fatigada - as suas linhas em permanente busca... Deseja-se o que nunca se tem completamente. Não há livro verdadeiro que se possa possuir. Dentro de cada um existe um mundo. Desse, outros se geram desdobrando-se no espelho de múltiplas faces da nossa imaginação. Mundos dentro de um mundo que existe dentro do meu mundo. E este, na sua substância essencial, feito de todos eles, próximos ou distantes, reais ou imaginados, no imenso labirinto das palavras, caminho tortuoso afinal.

É já desperta que pressinto a sua companhia. O seu silêncio exorta-me a fazê-los falar. Não importa a ordem ou o lugar. Não há princípio nem fim. Só o eterno percorrer dos sonhos. A linguagem forte das explicações alternando com o mistério existencial deste ser livresco, matéria literária que ocupa espaço, como não podia deixar de ser. São as prateleiras e cantos da casa que se enchem deste modo, mas o espaço mais preenchido fica dentro de mim. Não raro observo diálogos bastante estranhos entre autores, ideias e personagens. Afinal, eu sou eu, distinta de tudo isto. E, no entanto, quanto de mim não se fez daqui?!

Pego num livro ao acaso. Abro-o e leio umas quantas palavras, algumas linhas até... Mas não, não é este aquele com o qual quero hoje conversar. Será outro, portanto, talvez escondido, sem paradeiro certo e que é preciso procurar. Nada disso importa quando se quebra o silêncio e é preciso falar. Falarmos.

Foi assim que Kafka o disse estranhamente uma vez. Era já noite e a chuva caía. O ar era frio e o bafo da respiração lá fora contava histórias - "Talvez fosse aquele curto momento de acalmia e silêncio entre a noite e o dia, quando as nossas cabeças se recostam inesperadamente, quando tudo está silencioso sem que o saibamos, visto não o estarmos a observar e de repente desaparece; ficamos sós, os nossos corpos dobram-se, olhamos em redor mas já não vemos nada, nem sentimos qualquer resistência no ar, contudo interiormente recordamo-nos de que a uma certa distância há casas com telhados e com afortunadas chaminés angulosas em direcção ao chão e que a escuridão escorre através de águas-furtadas para vários quartos. E é uma felicidade, pois amanhã será um dia em que, embora possa parecer o contrário, conseguiremos ver tudo."

Ainda que nunca se possa ler tudo...




- De Kafka: excerto de Descrição de uma Luta


- Imagem: pesquisa do Google


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6 comentários:

vasco disse...

Mas que rico cantinho que a minha amiga aqui tem... E, sim, consegue-se ver quase tudo no dia seguinte ;) Beijinho!

Nilson Barcelli disse...

O excerto que escolheste é excelente.
Obrigado pela partilha, gostei de o ler.
Beijos.

Ana Paula disse...

Obrigada, Vasco! Fico feliz por teres descoberto o cantinho :)

Um beijinho também


Nilson, eu é que agradeço a simpática e atenta visita :)

Um beijinho

vbm disse...

Muito interessante o texto sobre as variações de um discurso, o espectro dessa variação efectiva, a verdadeira autoria na intertextualidade, seja na escrita, na comunicação ou na sociedade.

Kristeva, diz o comentarista, descreve isso sobre a noção de polifonia: interessante. No fundo, todos somos "Pessoa".

E apaixonante é ver como, por exemplo, um diálogo como o d'"O sofista", de há 2 mil e 500 anos, persiste vivo e influente na filosofia contemporânea, temática que baliza o jogo da linguagem.

mié disse...

Brilhante momento "filosófico-existencial"...

...espero não ter dito nenhum palavrão :))

"Mundos dentro de um mundo que existe dentro do meu mundo. E este, na sua substância essencial, feito de todos eles, próximos ou distantes, reais ou imaginados, no imenso labirinto das palavras, caminho tortuoso afinal.!

Os livros são sempre viagens.

...e conseguiremos ver tudo?

Gostei muito deste teu brilhante text0.

um beijo

terno

La Belle de Jour disse...

Seu blog é rico em leitura. Interessante mesmo. Apareça no meu também. Beijocas!!!

The Beggar Maid
Sir Edward Burne-Jones
Theseus in the Labyrinth
Sir Edward Burne-Jones

Obrigada!

Veio do aArtmus

Obrigada!

Veio do Contracenar

Obrigada!

Obrigada!

Dedicatórias

Todos os textos - À Joana e à Marta