Segunda Parte: metamorfoses do acto de escrever...
...nada se cria, nada se perde, tudo se transforma... (Lavoisier)

No lugar improvável do diálogo improvável à hora improvável e nos termos improváveis. A luz era provável que fosse aquela mas a temperatura estava para lá do limite do previsível.
Trabalha aqui? Sim. Eu também. Nunca o vi. Mas eu sim e aproveito para lhe perguntar: porque trabalha? Que pergunta. É preciso trabalhar. Acha mesmo? Sem dúvida. Mas porquê? Ora deve saber que faz bem. Não sinceramente não sei. Por isso lhe pergunto. Bom não posso explicar-lhe. Seria longo demais. Mas temos tempo... Temos? Eu diria que já é tarde. Tarde para...? Ora para voltar ao trabalho precisamente. Pode não voltar. Posso mas quero voltar. Ah. Pensei que não. Enganou-se. Mas não gosta de conversar? Sim muito. Então porque não fica e me responde? Posso responder-lhe amanhã. Amanhã quando? A que horas? Não sei. Não estou a marcar um encontro. Não gosta de marcar encontros para conversar? Nunca pensei nisso. Mas pense agora. Oh sei lá se a conversa estiver marcada fica logo diferente não lhe parece? Talvez. Por outro lado o mais importante é conversar mesmo que seja preciso marcar. Noto que aprecia formalidades. Não se trata disso. Estava a pensar em certezas. Certezas de quê? Bom... certezas acerca de conversas. Pois eu não tenho certezas de quase nada. De conversas ainda menos. Mas sem compromisso pode faltar amanhã. Quem lhe garante que o compromisso não é ele próprio uma incerteza? Bom a palavra de alguém a sua por exemplo vale alguma coisa. Sim vale mas pode não valer o suficiente. O suficiente para quê? Ora para a cumprir. Quer dizer que não costuma cumprir a sua palavra... Não disse isso. Mas estava implícito. No seu entender não no meu. Pareceu-me. Pois noto que se guia por aparências. Não disse isso. Mas estava implícito. É difícil falar consigo. Eu diria o mesmo de si. Quer dizer que não volta a falar comigo... Não sei porquê. Bom não chegámos a nenhuma conclusão. E é preciso? O quê? Conclusões... precisa delas? Precisamos todos. Não estou de acordo. Ah vive sem tirar conclusões nenhumas...estou a ver. Não tem nada que concluir isso está a ser precipitado. Mas concluiu até hoje alguma coisa? Se quer que lhe diga não lhe vou responder. Mas porquê? Porque está a forçar-me a concluir. Ah não gosta de conclusões forçadas. Claro que não. Posso ao menos concluir isso? Mas que teimosia. Se quiser conclua. Desde que não me inclua. Estava a pensar incluí-la. Pois logo vi... mas não seria de me perguntar primeiro se concordo? De resto nem sei em que é que pensa incluir-me... Bom no meu jantar. Que grande volta não? Grande volta? O restaurante é perto. Não se faça de desentendido. De resto é tarde. Tenho que ir... Tem mesmo? Tenho. Mas podemos marcar? O quê? O jantar... Marque. Mas conte com o acaso. Que acaso? Um igual a este. Eu não tinha marcado conversar consigo. Pois não. E estamos a fazê-lo. Sim mas o acaso não costuma repetir-se. Ah vejo em si o gosto pela repetição. A tal exigência de certezas. Mas porque é tão agressiva quanto a isso? Agressiva eu?! Sim. Impressão sua. Mas tem fundamento. Eu não diria tal. De resto os fundamentos têm muito que se lhes diga. Pois portanto devemos continuar... Continuar o quê? A conversa. Nada me obriga. Obriga-a o fundamento. Essa nunca tinha ouvido. Mas é tal e qual: se quiser rectificar a minha fundamentação... Ai já estou cansada. A sério?! Porquê? Estou cansada de pensar. Então não pense viva. Essa é boa. E pensar não é viver? Pronto não pense sinta. E pensar não é sentir? - devia explicar-me esse conselho. Tudo bem para tal estarei aqui amanhã - espero que sinta a minha presença. Para já não sinto nada mas talvez venha a pensar nisso. Humm... eu diria "que bom". Pois mas essa fica para amanhã. Essa qual? A minha resposta à sua tirada do "que bom". Afinal sempre marcámos alguma coisa... Se marca eu desmarco. Nesse caso desmarco para que marque. Combinado.
Assim se teceu lenta e inexoravelmente o caminho do improvável - ao provável.
Decorreu o lançamento da Revista Inútil, na qual me foi dada a honra (e o prazer) de participar. Aqui fica a divulgação deste novo projecto repleto de criatividade.
Os meus parabéns à Direcção da Revista, com votos do maior sucesso!

Afinal o mundo dos homens e das mulheres era assim mesmo um lugar submetido à lei das compensações.
"Dás-me isto eu dou-te aquilo" e a voracidade infernal e amoral de manter fantasias lucrativas por cima de toda a folha outonal. Alguns vinham dessa tradição kantiana a da pessoa como um fim em si mesmo mas isso já não se usava. Agora tinha muito mais sucesso o niilismo radical do salvar a face - ou a vã glória de mandar e dominar os sonhos de outrém por sua vez subjugado perante uma só possibilidade que fosse de galgar alguns degraus nessa quimera da ascenção social - incomoda diz-se um símbolo mais libertário menos de liberdade.
Olho o céu imenso digo-o as nuvens que passam deixando rastos de pequenas tempestades dizem que o tempo passa. À superfície a terra acidentada. Percorro-a com o olhar. O que se vê vem agora de uma outra perspectiva imbuída das imagens dos satélites. Que sonhos para sonhar os daqueles que hoje nascem? pergunto no suave cair das folhas lânguidas das árvores escassas perguntam que amanhã? Vi hoje uma rapariga e ontem era um rapaz pois nada disso importa traçavam um caminho. No bolso do casaco havia um GPS-Vida. Amanhã debaixo de um sol brilhante vou ver um senhor todo-poderoso dedo esticado sentença de morte nada disso importa. Há casas a construir. O vento é forte. Apanho os cabelos que me tapam a visão teimosos. Focos infecciosos na terra proliferam à luz do dia. Vi hoje uma mulher em luta nada disso importa entrar na epidemia ficar contaminada dizem que conta sim. Gostava de escalar uma montanha mas não tenho tempo. Fica para amanhã.
Aqui nesta janela há mar há esperança. Há a fronteira das primeiras chuvas. Estou no limiar assustador da tempestade. Ouvi hoje o ruído do trovão. Tudo parece estar bem. O mar é salgado. Posso pousar as mãos ao de leve no instante da formação das ondas. Sem as desmanchar. E se assim é tudo é possível.

Agora que estava tudo arrumado todas as coisas colocadas nos seus lugares podia começar a pensar vaguear pelos labirintos da memória. Recordava alguns instantes em especial e não sabia o por que sim desses e o por que não de outros. Seria absurdo justificar as coisas quando se viviam coladas à pele dos sonhos. Claro ela ainda sonhava embora fossem sonhos com a vida de agora metida pelo meio. Chegada a hora gostava muito de ficar ali sentada à janela lá fora um mar bem próximo a encantá-la ao luar porque fazia passar uma série de imagens onde via tudo de novo ainda que de forma esbatida. As cores eram exactamente o que eram sem qualquer pincelada de fantasia. Mas não o lamentava. Ali estava ele e ali estava ela mas as mãos pendiam caídas ao longo dos corpos sem se encontrarem. Entretinha-se agora e desde há algum tempo atrás a criar mais do que a recordar ou a repisar esses desencontros. O novo passatempo inquietava-a mas colocava-a na posição de deusa criadora. Mal conseguia resistir a esse afã de dar vida juntando peças inertes porque isoladas. Olhou em volta e os olhos procuravam o ser amado que ela própria animava. Ao lado na bancada mal-iluminada espalhavam-se as diversas qualidades disponíveis. Subtilmente emitiam um doce apelo como que um lamento pediam que as compusesse e delas fizesse um todo essencial. Mas às vezes tinha medo de que o ser assim criado passasse da essência à existência e a obrigasse a confrontar-se com ele. Por isso adiava cada avanço criador. Por entre a semi-obscuridade pressentia a chama e a voz de si mesma obrigando-a a entregar-se à vertigem da escolha de cada detalhe desse fino recorte psicológico que amava. Sabia que a vida o é porque surpreende. Por isso temia resultados inesperados. Cada dia que passava aumentava esse crescendo de expectativa face ao imprevisto. Ontem mesmo tinha optado por acrescentar ao estranho
puzzle dessa personalidade-ideal o desejo incontrolável de exibição e a busca de adoração. Fizera-o não porque tudo isso fosse algo admirável para si mas precisamente pelo contrário. Esperava assim não criar um ser demasiado perfeito e conseguir evitar o tédio daquele modo de ser de quando tudo está certo.
Foi após tudo isto que sentiu sim todo o dia lá no fundo de si uma incomodidade teimosa a exigir atenção. Insistia no seu ser revolvido antes mesmo de um possível confronto com tais qualidades. Imaginava-se já prostrada perante o seu deus menor em submissa adoração atropelando o facto de poder não existir nada a admirar. Não queria um deus e sim um humano. Decepcionava-se. E era aquele fundo cansaço que começava a abater-se sobre si... Talvez hoje não criasse mais nada. Havia irritação latente e isso exasperava-a. Escolhera uma qualidade humana para criar um humano que pudesse amar. E era isso mesmo que escolhera aquilo que o faria comportar-se como um ser divino. Pedia agora a si mesma não para criar mas para destruir.
Ergueu-se da cadeira numa súbita decisão. Encostada à janela deixou o olhar vaguear na escuridão. Devagar debruçou-se na noite. O ar era húmido e despedia-se do verão. Percebeu um vulto. Perdia-se à volta dos carros parados. Insistente o olhar seguiu-o distraído. Sim reparou logo no como lhe pareceu: tão perdido quanto a sua falhada criação. Marcando o instante para sempre ele virou-se e viu-a. "Acredita? Não sei onde deixei o carro." Estranho e banal. Num relance olhou para trás mas a sala mal iluminada respirava o silêncio. Ele parecia cansado e nervoso passava as mãos pelo cabelo. "De que cor é o carro?" perguntou. Ele hesitou: "Se lhe disser que não sei... julga-me louco?" E a resposta segura: "Nem um pouco. Acho-o perfeito."
Os minutos passavam. Atrás dela uma serena escuridão parecia engolir toda a sala. No lugar da bancada havia agora uma grande mancha negra. Tudo parecia um lugar vazio. Lá fora as luzes amarelas faiscavam dissolvendo as sombras. Ele tinha-se encostado ao carro mais próximo e ela à janela. Os braços cruzados e os olhos brilhantes. Adivinhou-lhe o sorriso quando o ouviu de novo: "Estava aqui a pensar... noites falantes... são raras". "Hum... é verdade. Raríssimas. É preciso esquecer muito..." retorquiu.
Havia um relógio ao longe mas o tempo sumiu-se na noite. Era agora uma vaga impressão.
The Beggar Maid
Sir Edward Burne-Jones
Theseus in the Labyrinth
Sir Edward Burne-Jones
Dedicatórias
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