domingo, 26 de abril de 2009

Que nada...





Não tenho o sonho
na palma da mão.
Custa-me dizer-to
tão vulgarmente
que o tenho no coração.
Se acaso assim o vires...
(impossível de moldar)
por favor
enternece-te:
só assim é que o vejo
e a vida acontece-me.



quarta-feira, 22 de abril de 2009

Fantasia circular

Entrevista de Clarice Lispector


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...iam e vinham eram incessantes movimento eterno ao abrir dos dias iam numa nave toda circular sempre circulantes os seus movimentos tomavam à tarde chá de hipocrisia no espaço vazio liam os sinais eram bons leitores liam os jornais por vezes à noite ia uma pastilha movimentos lassos que as sombras pediam nada mais havia tinham os botões de uma fantasia e por trás da máscara em leve agonia inventar o amor era respirar sempre até ser dia noite na parede tarde nos jornais chá de hipocrisia inventa-se a história ao correr da imagem luzes de magia pós de fantasia no cruzar dos tempos então se criavam nave circular com dois comandantes que eram subalternos no espaço piratas da felicidade numa fantasia toda circular...



domingo, 19 de abril de 2009

Prémio

Um prémio, que muito agradeço, chegou aqui ao Fio de Ariadne. Muito obrigada, Fátima!




REGRAS:

1. O prémio veio da Fátima/Contracenar
2. Copie a imagem acima, as regras e o questionário neste post;

3. Publique no seu blog;
4. Responda às quatro questões mais abaixo;
5. Recrute, pelo menos, sete amigos no seu Blog Roll, partilhando-o com eles;

6. Volte no blog http://bloggistame.blogspot.com/ e deixe o URL do seu blog, para o seu endereço possa ser adicionado à Lista Mestre;
7. Have Fun!


PERGUNTAS & RESPOSTAS:


1. A pessoa que marcou você: Fátima ;
2. O título e URL do site: http://contracenar.blogspot.com/ ;
3. Data em que você foi linkado: 13 de abril de 2009;
4. As pessoas que você marcou: quanto a este ponto, marco todos os autores dos blogues cujos links se encontram mais abaixo, aqui no Fio de Ariadne...


quarta-feira, 8 de abril de 2009

A faca no divã

Uma pontada

Ao fundo da rua, a multidão apinhava-se, concentrada à volta do divã. A sessão estava marcada para as três da tarde. Ele ainda não tinha chegado, e eu dirigia-me devagar para o local combinado, prestes a desempenhar o meu papel. Na verdade, eu procurava uma solução para algo que me atormentava desde há muito tempo. Ele tinha-me prometido que tudo se resolveria pouco a pouco, três ou quatro sessões bastariam para libertar os meus fantasmas. Eu achava estranho que ele falasse deles com tanto à-vontade. Até parecia que os conhecia, que eram dele e não meus. Afinal, eu sentia-os, é certo, mas nunca os tinha visto frente-a-frente. Nem era capaz de lhes dar um nome! Ao passo que ele...era tu-cá, tu-lá com eles - se me fiasse no seu tom de segurança crescente, de cada vez que nos encontravamos lá no consultório.

Os espectáculos de rua eram cada vez mais procurados. Gratuitos, distraíam quem passava a caminho do emprego, "matavam" o tempo de quem vagueava pela cidade, sem rumo certo ou definido... Um caso de sucesso gritante, como ele tinha feito questão de focar para me convencer. Agora... eu tinha parado um pouco antes do local e o sítio já me assustava, vislumbrado ao longe por entre os fatos de tons claros dos homens e as blusas primaveris das raparigas - tinha um quê de cadafalso ao qual eu estava condenada. Claro que seria paga. Bem paga, aliás. Nada ficaria a dever pelas futuras sessões, ao longo das quais ele eliminaria de vez os meus fantasmas. Era esse o acordo, do tipo "pegar ou largar". Como eu fazia fé na sua reputação de psicanalista famoso e milagroso... enfim... decidi arriscar. As visões fantasmáticas pesavam no meu dia-a-dia. Sem forma clara e definida, sem rosto ou voz, eram uma presença inquietante que pairava à minha volta: até nas roupas que vestia, por vezes no abrir da mala para tirar qualquer coisa, o ar carregava-se da sua essência. Um perfume que se evolava dos meus objectos pessoais, invasivo ao ponto de os largar como se me queimassem as mãos.

Os meus amigos diziam-me que eu estava a ficar louca, mas eu tinha lido nos pesados livros da biblioteca que os mais loucos eram os ditos normais: "...quem não tinha fantasmas era cego!". Tão simples quanto isto. Gente importante dixit. Mas eu sentia-me uma normal verdadeira demais, e desejava não ver nada mais além... cegar só um pouquinho para descansar de tanta percepção extra-sensorial.
Reparei, então, que ele tinha chegado ao local nesse mesmo instante. Camisa branca luminosa, ar solene propício à ocasião. Sim, tudo se resolveria. E a nossa conversa, feita teatro do mundo, seria altamente eficaz - palavras suas, ditas, reditas, e também escritas em inúmeros ensaios ditos psico-analisantes, convertidos em best-sellers pela fúria do bem-viver da multidão ociosa.

Estava na hora... O divã esperava por mim. Aproximei-me devagar mas decidida, e nem o olhei quando me estendi no semi-leito avermelhado. As pessoas tinham aberto um espaço à minha volta em sinal de respeito. O silêncio agora era fatal. Calaram-se os motores dos carros nas ruas transversais e paralelas, a música deixara de se ouvir lá dentro nos cafés e restaurantes - portas abertas, todos cá fora, espiando ao longe. Ele prometera-me: "...nada de câmaras ocultas".

Reclinada no divã, a minha alma libertava-se deste mundo ao olhar o azul brilhante do céu acima de mim. Comecei a sentir a forte presença deles... Esperei, numa confiança algo receosa, pelo meu mestre e pela sua direcção espiritual. Foi quando senti uma dor estranha nas costas. O lado esquerdo do meu corpo estava quase paralisado. A sensação era suportável, mas incómoda, além de inexplicável. Ele começara a falar, mas eu mal o ouvia. Tentava perceber concentradamente o que se estava a passar comigo. As suas palavras iam aumentando a dor, ao ponto de ter que soerguer-me um pouco, ficando então numa posição caricata para o público. Procurei olhar disfarçadamente para a superfície do divã... E vi, sei que vi: o brilho cintilante do aço e o cabo de uma faca. De repente, ela recolheu-se, escondida no forro aveludado. Encostei-me de novo e o mundo acalmou. Finalmente, concentrei-me nas suas palavras...

(continua)


Imagem: pesquisa do Google

The Beggar Maid
Sir Edward Burne-Jones
Theseus in the Labyrinth
Sir Edward Burne-Jones

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