Já lá vai algum tempo... uma vez na escola, vejo uma colega, mais velha do que eu, de livro na mão a cada intervalo, aproveitando todos os minutos livres para a leitura. Professora de Português, fazia sentido, claro... Mas eu, sempre curiosa, queria muito saber que livro tão interessante estaria ela a ler... E, nessa manhã já longínqua, perguntei-lhe delicadamente: "É bom?... O livro?". Ao que ela respondeu afirmativamente, mas alertou-me para o facto de se tratar de uma leitura pessimista: o autor tinha morrido recentemente e, pelo que apurava com a sua leitura, tinha chegado ao fim da vida com uma perspectiva verdadeiramente negativa acerca do ser humano e do seu futuro. Lembro-me de assentir suavemente com a cabeça, mostrando ter tomado nota da sua apreciação, e agradeci-lhe pela sugestão de leitura, ainda que realizada indirectamente.
Por certo, ela já não se lembra dessa nossa conversa, mas eu nunca a esqueci. Não sei bem porquê. Certo é que a ideia de uma visão sem esperança acerca da humanidade (e do seu futuro) foi algo que me impressionou. Nessa época, eu acreditava que havia sempre uma saída para o maior dos males, ainda que uma dúvida desagradável volta e meia aparecesse a incomodar-me quanto a isso. Hoje, considero-me bem mais realista, mas também não posso afirmar-me uma verdadeira pessimista. Claro que o caso continua a interessar-me... Foi certamente por isso que, passados uns bons anos, dou por mim casualmente frente ao dito livro como se ele estivesse precisamente agora à minha espera. Eu tinha-o marcado na minha memória, mas nunca movera passos para o encontrar activamente. E eis que ele me surge num discreto mas marcante convite à sua leitura: escrever, de Vergílio Ferreira. Chegada finalmente a hora de o ler, é o que tenho feito. Sim, é efectivamente pessimista, não tenho como alterar esse facto. No entanto, é imperdível - ele interpela-nos. Esta é, seguramente, uma das mais nobres qualidades literárias, e assegurada, sem sombra de dúvida, por este último livro do autor, publicado postumamente. É nele que podemos encontrar passagens tão belas e profundas como estas:
«É o que sobeja, doce inquietação, neblina que a tudo dissolve, procura descentrada de não se sabe o quê e pouco a pouco uma emergência sem contornos, o esboço confuso do que não pode ter nome nem existir. Repousar aí. Sorrir aí.»
«Fala-se às vezes de "inspiração" a propósito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a lê. Mas lê-la é escrevê-la outra vez. E é preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspiração possível de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja lê, é sempre variável.»
«É o que sobeja, doce inquietação, neblina que a tudo dissolve, procura descentrada de não se sabe o quê e pouco a pouco uma emergência sem contornos, o esboço confuso do que não pode ter nome nem existir. Repousar aí. Sorrir aí.»
«Fala-se às vezes de "inspiração" a propósito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a lê. Mas lê-la é escrevê-la outra vez. E é preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspiração possível de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja lê, é sempre variável.»
[Excertos de escrever, Vergílio Ferreira]
Imagem: pesquisa do Google






