sábado, 23 de maio de 2009

Príncipes e princesas

Foi num cruzamento da cidade numa rua qualquer que o olhar te captou. Capturou. Era um mundo fragmentado de emoções que ressoava na atmosfera de buzinas e travões. Ainda que fossem milhares de vultos a circundar-me, encontrar-te-ia. Constituías o desafio da carne e o do espírito que a habita. Foi o elo invisível que fascinou. O não saber como com que se tece a vida que vem de um passado procurando cada fio da ligação ao futuro nas malhas do presente. Ainda hoje é incógnita se sentiste o mesmo que era então o meu pressentimento. Ou se o poder da imaginação me pregou uma partida que em si mesma eu procurava como lugar para estar sabendo que não poderia ficar.

Já aí não estou. Não poderia. Não há como estar quando o lugar é pura ilusão. Temos que reconhecer que aquela rua era uma espécie de castelo encantado aonde tu vinhas para me salvar. Mas não há príncipes e princesas. E mesmo assim... foras tu um príncipe sapo e eu amar-te-ia. Afinal eras só humano. De uma humanidade dilacerante. Tocante na sua insuficiência para me salvar. Ainda hoje te agradeço sem que o possas saber: não há salvação que não se encontre em nós mesmos. É por isso que não te vou falar do corpo e da hora do encontro destes átomos que nos constituem. Seria uma vulgaridade atendendo ao número de corpos que há no mundo passíveis de encontrar. Que encontres cem que encontres mil... só há encontro no olhar. E desencontro-te agora pois são essas as malhas nas quais se tece hoje o presente. Por vezes é preciso puxar um fio e desmanchar a rede. Fora de fantasias a verdade é que nos escapa dolorosamente tudo o que se entreteceu para trás... O romântico de tudo isso é que também se pode agarrar uma ponta. Com ela... o que a princesa faz é continuar a bordar flores e fantasias, então com outros pontos: talvez o pé-de-flor em lugar do de cruz.

Falo-te eu de bordados e de pontos... mas uma princesa que cresce tem uma particularidade que pode ser inconveniente: quer inventar pontos novos. E o único príncipe que ela pode esperar é aquele que a ajuda a inventar o tecido da vida. O que tu pensarias disso?! Bom... é certo que ficarias a pensar: quero pôr os príncipes a bordar. Mas afinal que mais compete a um príncipe que se preze senão o ser capaz de bordar com engenho e arte, inventando a vida a ferro e fogo no corpo da sua amada?! E depois... revestir-se de Ricardo Reis e ler poemas de amor:

«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)»

Mas a única evidência é que não vamos tecer ou bordar - ou mesmo enlaçar - nada juntos. Foi por isso que aqui gravei este pequeno estampado, desta feita com pontos de interrogação e de exclamação, imensos pontos finais. Ponto final. Sempre amovível, pode converter-se em vírgula, talvez em três pontos. Ponho reticências...




quinta-feira, 7 de maio de 2009

Objectos de desejo - Kafka

Quantas vezes penso muito devagar, sem pressas, neste estranho convívio com eles? É sobretudo ao nascer da manhã, naquele instante de luz ténue. Com ela o dia surge-me timidamente. Mas é com ousadia que recordo o amor vivido ao longo do tempo... todos os fragmentos da sua memória confluem para me despertar. O desejo sempre impaciente e inesgotável que ora tortura, ora enternece, acendendo a devoção desse eu profundo que se descobre no inesgotável percorrer das folhas. A vista que conquista incansavelmente - agora já fatigada - as suas linhas em permanente busca... Deseja-se o que nunca se tem completamente. Não há livro verdadeiro que se possa possuir. Dentro de cada um existe um mundo. Desse, outros se geram desdobrando-se no espelho de múltiplas faces da nossa imaginação. Mundos dentro de um mundo que existe dentro do meu mundo. E este, na sua substância essencial, feito de todos eles, próximos ou distantes, reais ou imaginados, no imenso labirinto das palavras, caminho tortuoso afinal.

É já desperta que pressinto a sua companhia. O seu silêncio exorta-me a fazê-los falar. Não importa a ordem ou o lugar. Não há princípio nem fim. Só o eterno percorrer dos sonhos. A linguagem forte das explicações alternando com o mistério existencial deste ser livresco, matéria literária que ocupa espaço, como não podia deixar de ser. São as prateleiras e cantos da casa que se enchem deste modo, mas o espaço mais preenchido fica dentro de mim. Não raro observo diálogos bastante estranhos entre autores, ideias e personagens. Afinal, eu sou eu, distinta de tudo isto. E, no entanto, quanto de mim não se fez daqui?!

Pego num livro ao acaso. Abro-o e leio umas quantas palavras, algumas linhas até... Mas não, não é este aquele com o qual quero hoje conversar. Será outro, portanto, talvez escondido, sem paradeiro certo e que é preciso procurar. Nada disso importa quando se quebra o silêncio e é preciso falar. Falarmos.

Foi assim que Kafka o disse estranhamente uma vez. Era já noite e a chuva caía. O ar era frio e o bafo da respiração lá fora contava histórias - "Talvez fosse aquele curto momento de acalmia e silêncio entre a noite e o dia, quando as nossas cabeças se recostam inesperadamente, quando tudo está silencioso sem que o saibamos, visto não o estarmos a observar e de repente desaparece; ficamos sós, os nossos corpos dobram-se, olhamos em redor mas já não vemos nada, nem sentimos qualquer resistência no ar, contudo interiormente recordamo-nos de que a uma certa distância há casas com telhados e com afortunadas chaminés angulosas em direcção ao chão e que a escuridão escorre através de águas-furtadas para vários quartos. E é uma felicidade, pois amanhã será um dia em que, embora possa parecer o contrário, conseguiremos ver tudo."

Ainda que nunca se possa ler tudo...




- De Kafka: excerto de Descrição de uma Luta


- Imagem: pesquisa do Google


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