Foi num cruzamento da cidade numa rua qualquer que o olhar te captou. Capturou. Era um mundo fragmentado de emoções que ressoava na atmosfera de buzinas e travões. Ainda que fossem milhares de vultos a circundar-me, encontrar-te-ia. Constituías o desafio da carne e o do espírito que a habita. Foi o elo invisível que fascinou. O não saber como com que se tece a vida que vem de um passado procurando cada fio da ligação ao futuro nas malhas do presente. Ainda hoje é incógnita se sentiste o mesmo que era então o meu pressentimento. Ou se o poder da imaginação me pregou uma partida que em si mesma eu procurava como lugar para estar sabendo que não poderia ficar.Já aí não estou. Não poderia. Não há como estar quando o lugar é pura ilusão. Temos que reconhecer que aquela rua era uma espécie de castelo encantado aonde tu vinhas para me salvar. Mas não há príncipes e princesas. E mesmo assim... foras tu um príncipe sapo e eu amar-te-ia. Afinal eras só humano. De uma humanidade dilacerante. Tocante na sua insuficiência para me salvar. Ainda hoje te agradeço sem que o possas saber: não há salvação que não se encontre em nós mesmos. É por isso que não te vou falar do corpo e da hora do encontro destes átomos que nos constituem. Seria uma vulgaridade atendendo ao número de corpos que há no mundo passíveis de encontrar. Que encontres cem que encontres mil... só há encontro no olhar. E desencontro-te agora pois são essas as malhas nas quais se tece hoje o presente. Por vezes é preciso puxar um fio e desmanchar a rede. Fora de fantasias a verdade é que nos escapa dolorosamente tudo o que se entreteceu para trás... O romântico de tudo isso é que também se pode agarrar uma ponta. Com ela... o que a princesa faz é continuar a bordar flores e fantasias, então com outros pontos: talvez o pé-de-flor em lugar do de cruz.
Falo-te eu de bordados e de pontos... mas uma princesa que cresce tem uma particularidade que pode ser inconveniente: quer inventar pontos novos. E o único príncipe que ela pode esperar é aquele que a ajuda a inventar o tecido da vida. O que tu pensarias disso?! Bom... é certo que ficarias a pensar: quero pôr os príncipes a bordar. Mas afinal que mais compete a um príncipe que se preze senão o ser capaz de bordar com engenho e arte, inventando a vida a ferro e fogo no corpo da sua amada?! E depois... revestir-se de Ricardo Reis e ler poemas de amor:
«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)»
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)»
Mas a única evidência é que não vamos tecer ou bordar - ou mesmo enlaçar - nada juntos. Foi por isso que aqui gravei este pequeno estampado, desta feita com pontos de interrogação e de exclamação, imensos pontos finais. Ponto final. Sempre amovível, pode converter-se em vírgula, talvez em três pontos. Ponho reticências...






