sexta-feira, 27 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
Especulação
No lugar improvável do diálogo improvável à hora improvável e nos termos improváveis. A luz era provável que fosse aquela mas a temperatura estava para lá do limite do previsível.Trabalha aqui? Sim. Eu também. Nunca o vi. Mas eu sim e aproveito para lhe perguntar: porque trabalha? Que pergunta. É preciso trabalhar. Acha mesmo? Sem dúvida. Mas porquê? Ora deve saber que faz bem. Não sinceramente não sei. Por isso lhe pergunto. Bom não posso explicar-lhe. Seria longo demais. Mas temos tempo... Temos? Eu diria que já é tarde. Tarde para...? Ora para voltar ao trabalho precisamente. Pode não voltar. Posso mas quero voltar. Ah. Pensei que não. Enganou-se. Mas não gosta de conversar? Sim muito. Então porque não fica e me responde? Posso responder-lhe amanhã. Amanhã quando? A que horas? Não sei. Não estou a marcar um encontro. Não gosta de marcar encontros para conversar? Nunca pensei nisso. Mas pense agora. Oh sei lá se a conversa estiver marcada fica logo diferente não lhe parece? Talvez. Por outro lado o mais importante é conversar mesmo que seja preciso marcar. Noto que aprecia formalidades. Não se trata disso. Estava a pensar em certezas. Certezas de quê? Bom... certezas acerca de conversas. Pois eu não tenho certezas de quase nada. De conversas ainda menos. Mas sem compromisso pode faltar amanhã. Quem lhe garante que o compromisso não é ele próprio uma incerteza? Bom a palavra de alguém a sua por exemplo vale alguma coisa. Sim vale mas pode não valer o suficiente. O suficiente para quê? Ora para a cumprir. Quer dizer que não costuma cumprir a sua palavra... Não disse isso. Mas estava implícito. No seu entender não no meu. Pareceu-me. Pois noto que se guia por aparências. Não disse isso. Mas estava implícito. É difícil falar consigo. Eu diria o mesmo de si. Quer dizer que não volta a falar comigo... Não sei porquê. Bom não chegámos a nenhuma conclusão. E é preciso? O quê? Conclusões... precisa delas? Precisamos todos. Não estou de acordo. Ah vive sem tirar conclusões nenhumas...estou a ver. Não tem nada que concluir isso está a ser precipitado. Mas concluiu até hoje alguma coisa? Se quer que lhe diga não lhe vou responder. Mas porquê? Porque está a forçar-me a concluir. Ah não gosta de conclusões forçadas. Claro que não. Posso ao menos concluir isso? Mas que teimosia. Se quiser conclua. Desde que não me inclua. Estava a pensar incluí-la. Pois logo vi... mas não seria de me perguntar primeiro se concordo? De resto nem sei em que é que pensa incluir-me... Bom no meu jantar. Que grande volta não? Grande volta? O restaurante é perto. Não se faça de desentendido. De resto é tarde. Tenho que ir... Tem mesmo? Tenho. Mas podemos marcar? O quê? O jantar... Marque. Mas conte com o acaso. Que acaso? Um igual a este. Eu não tinha marcado conversar consigo. Pois não. E estamos a fazê-lo. Sim mas o acaso não costuma repetir-se. Ah vejo em si o gosto pela repetição. A tal exigência de certezas. Mas porque é tão agressiva quanto a isso? Agressiva eu?! Sim. Impressão sua. Mas tem fundamento. Eu não diria tal. De resto os fundamentos têm muito que se lhes diga. Pois portanto devemos continuar... Continuar o quê? A conversa. Nada me obriga. Obriga-a o fundamento. Essa nunca tinha ouvido. Mas é tal e qual: se quiser rectificar a minha fundamentação... Ai já estou cansada. A sério?! Porquê? Estou cansada de pensar. Então não pense viva. Essa é boa. E pensar não é viver? Pronto não pense sinta. E pensar não é sentir? - devia explicar-me esse conselho. Tudo bem para tal estarei aqui amanhã - espero que sinta a minha presença. Para já não sinto nada mas talvez venha a pensar nisso. Humm... eu diria "que bom". Pois mas essa fica para amanhã. Essa qual? A minha resposta à sua tirada do "que bom". Afinal sempre marcámos alguma coisa... Se marca eu desmarco. Nesse caso desmarco para que marque. Combinado.
Assim se teceu lenta e inexoravelmente o caminho do improvável - ao provável.
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Escrita. Andy Warhol.
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