domingo, 19 de julho de 2009

Tâmaras

Quanto no amor se depura até que seja amor. E sabes desgosto desta palavra prefiro calar o amor. Afinal assim que o temos algo nele logo declina já não é mais que poder. Até ao poder dizê-lo. Posso mesmo confessar: preferia-me imune a tal tema. Tenho os meus próprios tabus. Cada palavra que escrevo é uma a mais que destrói esse núcleo amoroso. Mas... o que o verbo desafia! fá-lo sem paralelo quando é acerca do amor. Se ao menos fosse capaz... dizê-lo apenas com gestos... a minha boca cerrada muda e quieta calada. Se as mãos em vez de escreverem ensaiassem floreados criados e oferecidos aos meus dedos contorcidos... Tudo seria mais belo. Mais difícil de gastar.
Portanto como bem vês há um amor que é poder. É o poder de dizê-lo sem que jamais seja dito. Melhor seria o silêncio que nem sequer o diz. Quem sabe um dia te digo e bem melhor (mas calada) desta partida perdida que só vence ao perecer.
Não sei nem explico porque digo estes ditos. Talvez que o dizê-los seja fatalidade destino nosso o de querer fazer nascer estas palavras...
E no entanto é certa uma vez e o mundo existia mais além numa planície longínqua e desértica. A sua imensidão era tanta que ao percorrê-la ninguém cruzava outro alguém. Era então este mundo um mundo todo varrido por ventos e em solidão. Mas como creio bem sabes todo o deserto se quebra nalgum lugar um oásis fruto de alucinação. Neste tipo de paragens onde aflora o paraíso há sempre coisas mais belas. Como é o caso de um encontro. Entre seres sequiosos. Pois o que há mais nos desertos é esta falta de tudo o que é preciso beber. Algures sob sombras refrescantes onde a água sussurrava a vida parecia crescer. Não bebiam mas já os olhares se cruzavam com receio de perder: uma gota de água ou o seu ímpeto vital.

Resta-nos imaginar... que há amor - instantâneo do olhar micro-instante inexplicável. Entre a sede e a solidão toda a vida se devora. Esquecidos perdidos mergulham em olhares desejosos. Não é preciso beber. Mas bebem. E aí ah! todo o deserto é frescura debaixo de um sol mortal! Pode a vida decorrer... no serem felizes para sempre.
Um belo dia mais tarde neste lugar tão oásis sem saber como alguém disse: "amo-te". Foi uma bela promessa. Impossível duvidar. Só que também levou à questão da tâmara - questão simbólica é certo mas há frutos capazes de tudo. Mesmo até de discordar. Caída na areia sepulcral destacava-se uma tâmara dourada-avermelhada brilhante demais suculenta demais capaz de representar quer a cobiça quer a renúncia do amor - assim se gerou o foco da tensão amorosa. Foco de vida foco de morte. Foco de luta e de conquista. Símbolo de posse. Expressão de poder.
Humm... não há como dizer um belo e promissor "amo-te" se com isso todo o fruto especial fica para o outro objecto do amor. Penso eu nisto tudo e recordo. Afinal também houve um dia e muito bem me explicaste que existem balanças. Ofereceste-me uma. Ora então vamos trazê-la para aqui e pesar. Que tal? Pois bem me parecia: a tua tâmara pesa mais que as minhas.

Que mais posso eu dizer? Impossível explicar o amor. Mal consigo nomeá-lo. E por falar nisso: comes uma tâmara comigo?




quinta-feira, 9 de julho de 2009

No reino de OZ

Ser boazinha costuma tornar-se uma coisa aborrecida. Acontece com todas as coisas bastante previsíveis. Mas aqui tudo se trata de ficção e eu posso criar a história como quiser. Até posso criar uma história aborrecida. Se não repara:
Eu estava sentada numa mesa daquelas corridas onde o aborrecimento rapidamente se instala quando desde logo se prevê a exibição do teatro do mundo. Não que eu tenha alguma coisa em desfavor do teatro nada disso pelo contrário até amo de paixão. Mas prefiro o tipo de representação que diz meus caros agora vamos representar. E é uma tarefa nobre e elevada. Mas naquela mesa a representação era tão previsível que não conseguia cativar. Claro eu não tinha ao meu lado o eleito e o eleito de então estava afastado na mesa corrida representando um papel já bem memorizado. Não te preocupes serei justa - eu própria participava da cena e também tinha o meu papel. Igualmente memorizado. Sem dúvida e em comparação neste tipo de interpretação tu sabias os gestos e as falas muito melhor do que eu.
Mas adiante na história para não ficar aborrecida demais. Até porque eu também sou mazinha. Mas não o suficiente para te dizer que a decepção se instalava de morte. Não me arrependo de não o ter dito. Afinal somos todos humanos e decepcionantes por vezes. Por outro lado não posso deixar de o dizer porque há não-ditos que acorrentam o nosso ser a uma mesa corrida onde a verdadeira vida corre fugidia sem nada para guardar. A não ser a pequena maldade de contar esta história bastante aborrecida onde acabo por dizer o que não disse.
Qual é o momento onde se descobre essa inútil pretensão de ser Deus? de fulminar os outros com um olhar e prostrá-los a seus pés em absoluta adoração? A vã ambição de querer replicar as psiques julgando conhecê-las todas e dominá-las formatá-las? Eu podia explicar-te isto filosoficamente mas a história ficaria aborrecida demais para ti. Melhor será falar desta pequena vingança que consiste apenas em te magoar sem te magoar. Continuarás impune pois eu sou boazinha demais a bem dizer p'ra punir alguém. Sou tão humana enternecida p'lo humano dói-me sempre castigar.
Mas digo-te mesmo os bons estratagemas têm eficácia relativa. Pela repetição podem aperfeiçoar-se mas também degradar-se. Sei que possuis a técnica o engenho. Mas perdeste a arte. De me cativar. Sabes para mim Deus não tem rosto. E apesar de tu o teres esta minha benevolência extrema tão humana e aborrecida acaba por te respeitar. Acabou assim por te aceitar ali sentado na mesa corrida representando esse teatro do mundo. E eu complacente. De um modo terrível e sufocante. Foi por isso que parti. Felizmente tinha ali à mão os meus sapatos vermelhos voadores. Foi essa magia de emergência que me projectou directamente para este reino de Oz. Que é onde me encontro agora enquanto te conto esta história aborrecida. E o único caminho de regresso é livre. Se tudo correr bem levo o Homem de Lata comigo. Arranjei-lhe um coração de verdade.




Imagem DAQUI


The Beggar Maid
Sir Edward Burne-Jones
Theseus in the Labyrinth
Sir Edward Burne-Jones

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